REPORTAGENS

A influência da Escola Industrial na Glória do Ribatejo
RARET: o trampolim para a mudança

À entrada da Glória do Ribatejo encontramos a RARET (sociedade anónima de Rádio RETransmissão). Um espaço cheio de memórias que não deixa ninguém indiferente. No presente, esta infraestrutura carrega o passado, enquanto aguarda os projetos do futuro. Nesta edição, recordamos a importância desta iniciativa americana para o desenvolvimento da freguesia. Fomos falar com os naturais da freguesia que nos contam esta história, da qual foram protagonistas.

Nasceu em 1952 e durante várias décadas foi o maior posto emissor da Rádio Europa Livre. Um projeto americano que através das ondas curtas da rádio conseguia transpor as cortinas de ferro do mundo soviético e fazer, assim, chegar aí a ideologia capitalista. A Glória do Ribatejo foi assim um dos palcos da guerra fria. A instalação da RARET trouxe benefícios à freguesia: Fontanários públicos; maternidade; piscina, empregos… foram muitos os contributos da RARET para um certo desenvolvimento da freguesia. Como explica Rita Pote, “A RARET contribuiu de certo modo para o desenvolvimento da freguesia, já que muitos agregados familiares puderam contar com um rendimento mensal regular, o que, do ponto de vista material, muito contribuiu para que as suas condições de vida melhorassem consideravelmente”.
Por outro lado, como acrescenta, “os empregados usufruíam também de um conjunto de benefícios, nomeadamente, no que respeita a cuidados de saúde e educação, que acabaram por se estender a toda a população. Estou a referir-me concretamente ao posto de saúde, que incluía uma maternidade onde nasceram muitos glorianos, e à escola que, do meu ponto de vista, foi o grande trampolim para que grande parte da população juvenil pudesse alcançar outros horizontes que, de outra forma, isso nunca teria sido possível”.

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A Escola que criou oportunidades

A Escola Industrial da RARET abriu as portas no ano letivo de 1967/68. Uma escola privada que dava aulas gratuitamente, ao ensino preparatório e secundário. No total, a infraestrutura abrangia mil metros quadrados; um edifício com dois pisos. Muitos espaços verdes, salas amplas e iluminadas, ginásio, balnear, piscina, campo de ténis, cozinha, oficinas, sala de datilografia, sala de costura”.
Para a época, o espaço tinha as melhores condições. Um ensino de vanguarda, garante Gertrudes Monteiro, ex-aluna, “Tínhamos aulas de eletricidade, culinária, natação… tudo o que era essencial para a educação. Sentíamos uma grande diferença relativamente às outras escolas”. Um ensino chamado “Industrial” que oferecia dois cursos distintos: o “Curso Geral Formação Feminina” dirigido às meninas; e o “Curso Eletricidade e Eletrónica” para os meninos.
Outra das vantagens, como acrescenta, Gertrudes Monteiro, era o facto de a escola ser tão perto, mesmo na freguesia. “Naquela altura não havia meios de transporte, assim, podíamos deslocar-nos a pé e tínhamos tudo o que precisávamos”, defende.
Um ensino que primava, ainda, pela exigência. Como explica Natércia Caneira, “tinham muitas condições para apreender, era um ensino muito exigente. O meu filho andou na RARET até ao 8.º ano, depois, quando chegou a Salvaterra ia muito bem preparado, até sabia falar inglês melhor que a professora, garante”.
Rita Pote, ex-aluna, confirma. “Havia uma cultura de disciplina e de respeito muito enraizada, que não precisava de ser imposta para funcionar bem. Toda a gente conhecia as regras e bastava cumpri-las. Acresce ainda que os alunos, quando iam para aquela escola sabiam, a priori, que tinham mesmo de estudar. Era quase um capricho ser-se bom aluno e ainda nos sobrava muito tempo para conviver, fazer grandes amizades, preparar grandes festas de Natal e de final de ano”.
Escolaridade aumentou
Mudanças profundas foram verificadas na freguesia. Houve muito mais pessoas que puderam prosseguir os seus estudos. A escolarização da população aumentou consideravelmente. Como defende Manuel Gomes, “antes dessa época a maioria das pessoas nem a 4.ª classe tirava, ter aqui uma escola tão próxima foi muito importante para o desenvolvimento. Ajudou as pessoas da Glória a terem mais oportunidades e, consequentemente, mais condições de vida”.
Francisco Monteiro confirma, “Depois de aquela escola entrar em funcionamento, o número de pessoas com estudos superiores aumentou. Há muita gente, hoje licenciada graças aquela escola”.

Saudades de um tempo que passou

Novembro de 1989. Cai o Muro de Berlim. A guerra fria chega ao fim, a RARET tinha cumprido a sua missão. No início da década de 90, a Rádio RETransmissão, inevitavelmente, por fechar as portas. Consequentemente, a escola que deu formação a uma inteira geração, também, acabou por fechar.
Mais de 20 anos depois, os glorianos recordam com saudade o legado da Escola Industrial. Uma grande perda para a freguesia. “Era importante para a terra, dava vida ao concelho, agora, tiraram-nos tudo, só temos as primárias e creio que não será por muito tempo”, lamenta Constância Helena.
Já Perpétua Rodrigues defende que “o Governo devia ter aproveitado a Escola”, acreditando que “as boas infraestruturas podiam continuar, ainda, hoje em funcionamento, o que seria muito bom para a freguesia.”
O futuro das antigas instalações da RARET continua em aberto. Em 2006, parecia certo a construção de um empreendimento habitacional e turístico de grandes dimensões que já tinha nome escolhido. Para a Herdade Nossa Senhora da Glória previa-se a construção de um hotel e de uma academia de golfe. A crise deixou o projeto na gaveta, cerca de 8 anos depois, o edifício da RARET impõem-se na freguesia de Glória do Ribatejo. Ficam as memórias, fica a saudade de um tempo que passou.