José do Carmo Francisco

Domingos Lobo ao «Expresso da Lezíria»

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Em «Lisboa, Modos de Habitar» existe uma Cidade de interiores, de sangue derramado, de veias que secam».
Natural de Nagosela (1946), Domingos Lobo viveu em Lisboa e é programador cultural da Câmara Municipal de Benavente. Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e encenador, é autor de diversos livros como «Os navios negreiros não sobem o Cuando», «Pés nus na água fria», «As lágrimas dos vivos», «Território inimigo» e «Para guardar o fogo.» Sobre o seu mais recente título («Lisboa, Modos de Habitar» com prefácio de José Manuel de Vasconcelos) afirma ao nosso jornal: «É um percurso, entre o crítico e o nostálgico, pelas ruas que fizeram a minha infância e adolescência. Vivíamos nos idos de 1950/60, a rua, os cafés, os cinemas, as tertúlias como espaço nosso, como casa solta e livre. A rua, mesmo vigiada, era o nosso espaço privilegiado e primordial de todas as descobertas.»
Neto de Herlânder Peyroteo da RTP que o levou ao teatro Avenida representar o «Monólogo do Vaqueiro», Domingos Lobo viveu numa aldeia lisboeta cujos limites foram o Palácio Galveias, a fábrica Lusitânea, a praça de touros do Campo Pequeno e a pastelaria Namur. Além de ruas, havia cafés para ler, estudar e escrever pelo preço de uma «bica», havia eléctricos e um palácio povoado de livros: «Era só atravessar a rua e lá estava eu numa mesa enorme frente aos tijolos encadernados a carneira, lombada dourada e tudo, do «Mundo de Aventuras» do «Cavaleiro Andante», depois frente às lamechices da «Colecção Azul», aos policiais da colecção Vampiro, ao Salgari, ao Verne e a tudo o que veio por grosso e atacado.» – recorda Domingos Lobo. Foi nesse espaço que conheceu quatro poetas: Alexandre O´Neill, Maria Teresa Horta, José Manuel Mendes e David Mourão-Ferreira. Era essa «uma zona de bons ares onde as musas galopavam sem freio»
Voltando ao livro recente que percorre a sua geografia pessoal da cidade (conversas, tertúlias, paixões, cafés) o autor adverte: «Este livro pretende ser contributo para a descoberta/redescoberta de uma outra Lisboa, a que nos dói, a que viaja nos estribos dos eléctricos que restam, das casas que caem aos pedaços, da solidão, dos velhos, da vacuidade que invade o nosso território de afectos. Uma Lisboa de interiores, de sangue derramado, de veias que secam. Memória de outros rios. Livro que tenta reter o tempo breve do olhar num verso sem costuras, cetim a deslassar. Suspensão improvável do tempo da alegria, tempo caranguejo, animal de marcha falsa, lhe chamou José Cardoso Pires, no seu jeito lisbonês «cerrado». Também ele foi um amante magoado dessa cidade que está cada vez mais longe dos nosso primeiros gestos, da memória que se derrete à chuva, breve marulhar das sombras, voz velha, ressumante, que, apesar dos pesares, se nega ao silêncio.»
Vencedor recente do Prémio Alves Redol com «Largo da Mutamba», Domingos Lobo continua activo no seu projecto de «escreviver» e tem em preparação mais um livro de poesia, uma peça de teatro e um novo romance.

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