Jorge Sofia

As plantas afinal reagem, ou como o último a rir é o que ri melhor

É-nos referenciado que por causa de pragas e doenças se perdem 10 a16% das colheitas agrícolas a nível mundial. Por isso tantas vezes me vêm perguntar as curas, porém na natureza, apesar de crermos que o feitio das plantas é a aparente imobilidade e passividade perante os agressores, tem-se vindo a verificar que os estragos por doenças e ou pragas são a exceção e não a regra. Com efeito, diversos estudos científicos têm vindo a demostrar que as plantas têm um sistema imunitário evoluído e eficaz.
As plantas representam a quase totalidade da biomassa terrestre e sobreviveram durante milhões de anos às miríades de pragas e doenças que as atacam, isto enquanto os seus inimigos procuram insistentemente desestabilizar as defesas vegetais, através da descoberta e utilização de novas armas
Recentemente foi formulada uma hipótese de haver uma evolução paralela entre os inimigos dos vegetais e estes últimos, dita em “zig-zag”. Um modelo que permite compreender os diferentes níveis de resistência presentes nas plantas, a sua eficácia e as suas especificidades. Mas que também nos permite apercebermo-nos de uma inteligência dissimulada por parte daquelas.
Existe um primeiro nível de resistência da planta, ativado assim qua a planta, através de sensores extracelulares se apercebe de componentes químicos do organismo do invasor (por exemplo a quitina presente nos fungos). Esta resistência manifesta-se num rápido reforço das paredes das células vegetais ou através da envolvência do agressor por depósitos de substâncias químicas que impedem o seu desenvolvimento (Faz lembrar o reforçar das muralhas de um castelo). Isto foi o ZIG.
Em resposta a este primeiro nível surge o ZAG, os agentes das doenças vegetais contra-atacam injetando substâncias químicas no interior da célula vegetal com o objetivo de neutralizar ou curto-circuitar aquelas vias de defesa, virar a produção das células a seu favor ou mesmo intoxicar a célula vegetal (Entramos na guerra química), e a planta fica à mercê do invasor.
Ao detetar essas substâncias a planta responde com novo ZIG nomeadamente através de uma reação de hipersensibilidade ao patógeno (digamos alergia) que leva à morte dos tecidos vegetais em torno do invasor, através da produção de substâncias antimicrobianas, confinando –o, isolando-o e se possível matando-o. Associadas a estas substâncias ou isoladamente, dependendo do inimigo e das suas armas, as plantas também formam barreiras físico-químicas (depósitos de lenhina, suberina) que isolam o patógeno. Este responde com novo ZAG, procurando novas armas para ultrapassar aquelas defesas das plantas o que conduzirá a nova resposta da planta.
Estes estudos também se têm dirigido às pragas e à forma de melhor as combater. Um dos exemplos é o recente trabalho de Teva Vernoux sobre o ácido jasmónico, uma hormona vegetal produzida em resposta a um dano mecânico como é o ataque de um inseto, sendo também produzido perante a presença de uma doença. Trata-se pois de um sistema generalista de alarme das plantas. Num estudo levado a cabo por aqueles investigadores, em plantas danificadas com um escalpelo, para simular o ataque de um inseto, verificou-se o aumento de ácido jasmónico em direção às raízes à velocidade de um centímetro por minuto. Quando o sinal da agressão chegou às raízes, a acumulação de ácido jasmónico levou à produção de diversas substâncias de defesa das plantas, nomeadamente de produtos que tornam as proteínas vegetais indigestas para os insetos, impedindo-os de comer. A coevolução dos agentes patogénicos e dos vegetais compreende o desenvolvimento contínuo de novas estratégias de ataque e de defesa por parte dos dois parceiros da interação. Com a crescente retirada de produtos fitofarmacêuticos do mercado, em função de preocupações de higiene, segurança, saúde e ambiente, a nova agricultura vai ter de se socorrer do desenvolvimento de novas estratégias na proteção de plantas que tirem partido desta capacidade natural das plantas de se defenderem, ou seja da sua esperteza.

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