Aurélio Lopes

“Puros” disparates

A ausência de uma adequada uniformidade de conceitos é, provavelmente, o maior problema que se coloca, hoje em dia, ao Movimento Folclórico Nacional. Até porque, deste, decorrem outros, a exemplo da gravosa promiscuidade que grassa nesta área da cultura tradicional portuguesa.
Alias, é precisamente a quase omnipresente ausência sistemática de rigor conceptual, que nos impede de aperceber a extrema variedade de projetos e manifestações que, à falta de melhor denominação (leia-se, classificação), se acoitam sob a bandeira do Folclore.
Projetos que vão desde a pretensão cultural de representar, coerente e rigorosamente, vivências tradicionais fósseis bem definidas no tempo e no espaço, até à mera utilização de alguns estereótipos populares como matrizes inspiradoras de um espetáculo de animação turística ou recreativa.
Entre estas duas realidades manifestam-se, naturalmente, toda uma infinidade de situações. Todas igualmente respeitáveis, é claro, mas que correspondem, natural e conceptualmente, a realidades diferentes que, como diferentes, deveriam ser encaradas.
Necessitamos, assim, de perceber (antes do mais) o que se entende por Folclore. De nos familiarizarmos com os seus pressupostos de abrangência, diversidade, mutabilidade e, principalmente, funcionalidade.
Sem eles “andamos ao Deus dará”. À procura de “bengalas” que usamos a torto e a direito (mais a torto que a direito, diga-se de passagem) mas das quais, muitas vezes, nem sequer sabemos bem o que querem dizer.
Em 2002 (organizado pelo Jornal Folclore) realizou-se em Santarém uma reunião tendente a formular um conceito operativo de folclore que os agrupamentos pudessem usar como elemento orientador da sua pesquisa e divulgação.
Da referida reunião resultou, então, uma síntese conceptual que, grosso modo, podemos (ainda mais sinteticamente) assim, formular:
O padrão dito folclórico é todo o tipo de elemento cultural que as populações rurais criaram ou adotaram e que se popularizou pela sua adequação às funções e/ou gostos locais ou regionais, vulgarizando-se o seu uso em todos ou num qualquer grupo social, qualitativa e quantitativamente representativo, durante um espaço de tempo significativo.
Estavam assim presentes os três critérios indispensáveis à atribuição do estatuto de tradicional a qualquer tipo de padrão cultural: a vulgarização do seu uso, a representatividade local do grupo ou grupos portadores e ainda o problema, sempre cadente, da temporalidade.
Esta é até agora a única conceção orientadora em presença*. Não oficial mas de alguma forma oficiosa.
Contudo a sua influência continua a ser insuficiente. Afinal muitos dos agrupamentos, sem acompanhamento específico por parte de instituições como a FFP ou o INATEL, não possuem conhecimentos que lhe permitam operacionalizar tais conceitos.
Outros pura e simplesmente preferem viver no caos existente e ir tirando o partido que a confusão permite.
Em suma uns não podem e outros não querem. E, alguns (demasiados, dir-se-á), não podem, nem querem!

Necessitamos, contudo, de interiorizar o que é que se entende por “cultura tradicional”. Precisamos de saber que esta (como qualquer cultura, tradicional ou não) não surgiu por geração espontânea e não nasceu já feita! Pelo contrário, consubstanciou-se através de milénios de aculturações e fusões culturais, evoluindo gradualmente até às versões dos nossos dias.
E que, assim, cada estádio de evolução vale tanto como aquele que o precede. E, obviamente, como o que o segue!
Aliás, é aqui, precisamente, que encontramos duas habituais aberrações, tão caras aos nossos dirigentes folclóricos.
- Primeiro as noções de “genuíno”, “autêntico”, “puro”! Como se existisse algo a que pudéssemos chamar, folclore primordial; remontando ao início dos tempos, original e imaculado!
- Depois a noção prática de que o mais antigo é “mais folclórico”, mais autêntico, mais prestigiado!
Destes dois equívocos advém, depois, um universo de disparates!
Apregoa-se, por exemplo, a representação do “mais genuíno folclore minhoto”, do “mais puro folclore saloio” ou do “mais autêntico folclore ribatejano!”
Proliferam as “capitais do folclore”. Proclama-se a especial “riqueza do folclore” desta ou daquela localidade ou região!
Apresentam-se trajes, com “três ou quatro séculos”, os quais (se tal pretensão fosse verdadeira) estariam absolutamente descontextualizados de uma representação folclórica que ser quer coerente no tempo e no espaço!
Enfim! Um autêntico chorrilho de asneiras!
Quando, afinal, para se constituir uma boa representação folclórica, basta apenas apresentar as vivências-padrão da área cultural que escolhemos representar. Tanto quanto é possível, é claro, hoje conhecê-las!
Respeitantes, estas, a um tempo a que foi possível remontar, num processo de pesquisa minimamente honesto e rigoroso.
Apenas isto!

*Brevemente (e a este propósito) realizar-se-á na Golegã uma reflexão/debate que pretende aproximar a Academia e os agentes de terreno da cultura popular, na busca de esclarecimento e formalização de diversas conceções culturais e patrimoniais, das quais participam conceitos como Folclore, Etnografia, Tradição e Representatividade.

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